Como empresário especialista em educação, Sergio Bento de Araujo observa com frequência uma cena que revela muito sobre o potencial transformador da educação: um grupo de estudantes reunidos em torno de uma bancada, debatendo com intensidade, testando hipóteses, errando, ajustando e tentando de novo. Eles não estão em uma aula convencional, mas em uma sala de robótica preparando-se para um concurso escolar. O que parece ser apenas uma competição técnica é, na realidade, um dos ambientes de aprendizagem mais ricos que a escola pode oferecer, capaz de desenvolver competências que os métodos tradicionais de ensino dificilmente alcançam com a mesma profundidade.
Este artigo propõe um olhar mais aprofundado sobre o que acontece por trás da construção de um robô escolar. Será explorado o que é a robótica educacional, de que forma os concursos constroem competências essenciais, quais são os desafios de acesso a essa prática e como ela pode se tornar uma política educacional de impacto real no Brasil. Confira a seguir para saber mais!
O que é a robótica educacional e como ela se difere do ensino técnico tradicional?
A robótica educacional não deve ser confundida com formação técnica em engenharia ou programação. Sua proposta é mais abrangente e seu impacto mais profundo: trata-se de uma metodologia ativa de aprendizagem que utiliza a construção e a programação de robôs como pretexto para desenvolver competências cognitivas e socioemocionais em estudantes de diferentes faixas etárias. O robô, nesse contexto, é um meio, não um fim. Tal como demonstra Sergio Bento de Araujo, o que importa não é o artefato construído, mas o percurso percorrido para construí-lo: as perguntas feitas, os problemas enfrentados, as decisões tomadas em grupo e os fracassos transformados em aprendizado.
Diferentemente do ensino técnico tradicional, que geralmente segue um roteiro definido com respostas certas previamente estabelecidas, a robótica educacional valoriza a experimentação e a incerteza como parte essencial do processo. Os estudantes são desafiados a criar soluções para problemas que muitas vezes não têm uma resposta única ou definitiva, o que exige que desenvolvam a tolerância à frustração, a criatividade e a capacidade de pensar fora dos modelos já conhecidos. Esse tipo de experiência é raro no modelo escolar convencional e extremamente valioso para a formação integral dos jovens brasileiros.
De que forma os concursos de robótica desenvolvem competências essenciais nos estudantes?
Os concursos de robótica escolar funcionam como laboratórios de competências que o mercado de trabalho e a vida em sociedade demandam com crescente intensidade. O trabalho em equipe é talvez a competência mais evidente: os grupos precisam distribuir tarefas, negociar decisões, lidar com divergências e construir uma solução coletiva dentro de um prazo determinado. Nesse processo, emergem naturalmente habilidades de liderança, comunicação e gestão de conflitos que nenhuma disciplina curricular tradicional consegue desenvolver com a mesma autenticidade, simplesmente porque a pressão real da competição exige respostas genuínas, não ensaiadas.

O pensamento computacional, frequentemente associado apenas à programação, também se desenvolve de maneira orgânica nos concursos de robótica. Decomposição de problemas complexos em etapas menores, identificação de padrões, criação de algoritmos e depuração de erros são processos que os estudantes aprendem fazendo, não apenas lendo ou ouvindo. Esse tipo de aprendizagem ativa tem impacto comprovado na retenção do conhecimento e na capacidade de transferir o que foi aprendido para contextos diferentes. Sergio Bento de Araujo remete que experiências como essas deveriam ser parte estrutural do currículo escolar, não atividades extracurriculares opcionais para poucos.
Quais são os desafios para democratizar a robótica nas escolas públicas brasileiras?
A robótica educacional ainda é, em grande medida, um privilégio das escolas com maior poder econômico no Brasil. Kits de robótica, plataformas de programação, professores com formação específica na área e espaços físicos adequados para a prática representam um investimento que a maioria das escolas públicas simplesmente não tem condições de realizar sem apoio externo. Essa realidade cria uma desigualdade educacional preocupante: os estudantes que mais se beneficiaram de metodologias inovadoras como a robótica são frequentemente os mesmos que têm menos acesso a elas, perpetuando um ciclo de exclusão que começa na escola e se estende ao longo de toda a trajetória profissional.
Superar esse desafio exige uma articulação entre diferentes atores: o poder público precisa incluir a robótica educacional em suas políticas de formação docente e aquisição de materiais pedagógicos; empresas e fundações podem contribuir com programas de doação de kits e capacitação de professores; e as próprias escolas podem buscar soluções criativas com materiais de baixo custo, como projetos de robótica com materiais reciclados que preservam toda a riqueza pedagógica da atividade sem exigir investimentos expressivos, conforme salienta Sergio Bento de Araujo.
Como as feiras e os concursos escolares podem transformar o futuro do ensino no Brasil?
Feiras educacionais e concursos de robótica têm um potencial que vai além do desenvolvimento individual dos estudantes participantes. Quando bem organizados e amplamente divulgados, esses eventos funcionam como vitrines da inovação pedagógica, inspirando professores, gestores e formuladores de políticas públicas a repensar o modelo escolar e a valorizar metodologias que colocam o estudante como protagonista do próprio aprendizado.
Sergio Bento de Araujo acredita, portanto, que o caminho para uma educação brasileira verdadeiramente transformadora passa pela multiplicação de experiências como essas, com apoio institucional, cobertura ampliada e integração com os currículos oficiais. O concurso de robótica que começa em uma escola pública da periferia e chega a uma competição nacional carrega consigo uma mensagem poderosa: de que qualquer estudante, independentemente de sua origem, tem a capacidade de criar, inovar e surpreender quando recebe as condições e o estímulo adequados. Essa convicção, cultivada desde cedo na experiência escolar, é o que forma não apenas bons profissionais, mas cidadãos comprometidos com a construção de um país melhor.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
