Segundo Marcello José Abbud, especialista em soluções ambientais e diretor da Ecodust Ambiental, toda vez que chove em uma cidade brasileira de médio ou grande porte, toneladas de resíduos sólidos acumulados em vias públicas, calçadas e terrenos baldios são arrastados pela enxurrada até córregos, rios e, eventualmente, o mar. Nota-se que a drenagem urbana deixou de ser apenas um problema de infraestrutura e se tornou uma das principais vias de contaminação ambiental nas cidades brasileiras.
O mecanismo é simples e devastador. Isso porque resíduos abandonados ou coletados de forma irregular acumulam-se nas ruas. Quando chove, a água arrasta essa sujeira, que inclui produtos químicos, metais pesados e plásticos, direto para a rede de drenagem. Inevitavelmente, esse fluxo percorre a rede de drenagem e desemboca em corpos hídricos, muitas vezes sem nenhum tipo de tratamento ou barreira de contenção. Em cidades com coleta irregular e alta densidade populacional, o efeito é amplificado a cada novo evento de chuva.
O que os estudos de qualidade hídrica revelam?
Análises de qualidade da água em rios urbanos brasileiros após eventos de chuva mostram picos de concentração de coliformes fecais, metais pesados e microplásticos que chegam a superar em dezenas de vezes os limites estabelecidos pela legislação ambiental. Na prática, o problema é que esses picos são transitórios e raramente aparecem nas médias usadas pelo poder público para avaliar a qualidade dos corpos hídricos, criando uma subnotificação sistemática do impacto real.
A contaminação não fica confinada aos rios, frisa Marcello José Abbud. Isso porque parte dos poluentes se deposita no sedimento do fundo, onde persiste por anos. Já outra parte segue para os estuários e zonas costeiras, onde afeta ecossistemas marinhos e a segurança de pescados consumidos por populações litorâneas.

Infraestrutura de drenagem projetada para outro contexto
Grande parte da rede de drenagem urbana brasileira foi projetada décadas atrás, em contextos de menor impermeabilização do solo e menor geração de resíduos. Com a expansão urbana acelerada e o aumento da produção de lixo, essa infraestrutura passou a operar além da sua capacidade, tanto em volume de água quanto em carga de contaminantes transportados. Diante disso, reformar essa rede sem enfrentar ao mesmo tempo o problema da geração e do acúmulo de resíduos é uma solução incompleta, que adia o problema sem eliminá-lo.
Na visão de Marcello José Abbud, a solução convencional, ampliar e modernizar a rede de drenagem, é necessária, mas insuficiente se não vier acompanhada de melhoras na gestão de resíduos sólidos. Não adianta aumentar a capacidade de escoamento se o volume de lixo disponível para ser arrastado continua crescendo.
Onde a gestão de resíduos e a drenagem urbana precisam se encontrar?
Marcello José Abbud e profissionais da Ecodust Ambiental esclarecem a importância de uma abordagem integrada, que trate a gestão de resíduos sólidos e a infraestrutura de drenagem como sistemas interdependentes. Isso inclui barreiras físicas instaladas em bocas de lobo e canais para reter resíduos antes que entrem na rede, programas de limpeza de vias públicas com maior frequência nos períodos de chuva e investimentos em coleta que reduzam o acúmulo de lixo nas superfícies urbanas.
Algumas cidades brasileiras já testam soluções desse tipo com resultados positivos. O desafio agora é escalar essas iniciativas para que deixem de ser experiências pontuais e se tornem parte do planejamento urbano permanente, antes que a próxima chuva carregue mais uma carga invisível para dentro dos rios.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
