Existe uma ironia no mercado de crédito brasileiro que Pedro Daniel Magalhães identifica com frequência: credores que adotam posturas excessivamente rígidas em processos de recuperação de empresas frequentemente destroem mais valor do que preservam. A lógica do credor que pressiona por liquidação imediata, sem avaliar a viabilidade operacional real do devedor, produz resultados piores para todos os envolvidos do que uma negociação estruturada que permita à empresa se reorganizar e retomar sua capacidade de geração de caixa.
Essa ironia se repete porque o mercado ainda não desenvolveu plenamente a cultura de negociação colaborativa que os processos de recuperação de empresas eficientes exigem.
Por que a postura dos credores define o desfecho de uma recuperação mais do que a situação da empresa?
Na avaliação de Pedro Daniel Magalhães, a empresa em recuperação é apenas um dos fatores que determinam o desfecho do processo. A postura dos credores, a velocidade com que tomam decisões e a disposição para negociar soluções que preservem o valor do negócio são variáveis igualmente determinantes e frequentemente mais controláveis do que a situação financeira da devedora.
Credores que entendem o processo de recuperação como uma oportunidade de preservar valor, e não apenas de recuperar crédito, chegam às negociações com uma perspectiva que amplia o espaço de soluções viáveis. Eles estão dispostos a aceitar condições que, no curto prazo, implicam algum sacrifício financeiro, mas que, no médio prazo, produzem retornos superiores aos que obteriam em um processo de liquidação acelerada de ativos deteriorados.
O que diferencia credores que criam valor em processos de recuperação dos que destroem?
Segundo Pedro Daniel Magalhães, a diferença começa na forma como o credor avalia sua posição no processo. Credores que enxergam a recuperação judicial como uma derrota tendem a adotar posturas que aceleram a deterioração do valor do ativo. Credores que a enxergam como um mecanismo de reestruturação de uma relação financeira que precisa ser redefinida conseguem participar do processo de forma construtiva e aumentar suas chances de recuperar valor de forma significativa.

A capacidade técnica para avaliar a viabilidade operacional do devedor é igualmente crítica. Credores que não conseguem distinguir empresas com problemas financeiros temporários de empresas com modelos de negócio estruturalmente inviáveis tendem a tomar as decisões erradas em ambos os casos: pressionando por liquidação de empresas que poderiam se recuperar e aceitando planos de recuperação de empresas que deveriam ser liquidadas.
Entre as práticas que diferenciam credores sofisticados em processos de recuperação de empresas, destacam-se:
- Investimento em análise independente da viabilidade operacional do devedor antes de definir a postura de negociação.
- Disposição para aceitar conversão de dívida em participação acionária quando a perspectiva de valorização justifica o risco.
- Preferência por acordos extrajudiciais que preservem a confidencialidade e reduzam os custos do processo.
- Monitoramento ativo do cumprimento do plano de recuperação como forma de proteger o valor do crédito reestruturado.
A importância do tempo na preservação de valor em processos de recuperação
Pedro Daniel Magalhães observa que um dos fatores mais subestimados em processos de recuperação de empresas é o impacto do tempo sobre a preservação do valor econômico. À medida que a negociação se prolonga sem direcionamento claro, a operação tende a sofrer deterioração progressiva, não apenas em termos financeiros, mas também em aspectos operacionais e reputacionais que sustentam sua capacidade de geração de caixa.
Esse efeito se intensifica quando não há coordenação entre os credores, já que a ausência de alinhamento mínimo sobre estratégias de atuação prolonga a incerteza e paralisa decisões críticas para a continuidade do negócio. Fornecedores, clientes e colaboradores passam a reagir à instabilidade do processo, o que acelera a perda de competitividade da empresa em recuperação.
O crédito que se preserva negociando vale mais do que o crédito que se perde litigando
Para Pedro Magalhães, a lição central que o mercado de crédito brasileiro ainda está aprendendo é simples na teoria e difícil na prática: crédito preservado por meio de negociação inteligente vale sistematicamente mais do que crédito disputado em processos litigiosos prolongados. Cada mês de litígio consome recursos que poderiam estar sendo direcionados para a recuperação da empresa, deteriora relacionamentos que seriam necessários para sua reabilitação e reduz o valor dos ativos que eventualmente serão liquidados.
Pedro Daniel Magalhães conclui que o desenvolvimento de uma cultura de negociação mais sofisticada entre os credores brasileiros é uma das mudanças estruturais mais necessárias para que o mercado de recuperação de empresas cumpra plenamente seu papel de preservar valor e permitir que negócios viáveis atravessem crises financeiras sem precisar ser destruídos no processo. Essa mudança cultural não ocorre rapidamente, mas cada processo de recuperação bem conduzido contribui para criar os precedentes e o aprendizado que o mercado precisa acumular.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
